sexta-feira, 8 de março de 2013

Sem título

"Sempre me perguntam coisas que eu não consigo responder. Aí eu falo o que eu não sei dizer. Falo o que me vem na cabeça. E depois vem na minha casa e batem na minha porta. E com o que eu falei escrito num papel rabugento, perguntam. Por que eu falei isso. E eu respondo: Porque eu não tinha nada pra falar e falei isso.

No dia seguinte, as primeiras capas de jornais e revistas, vem com a minha foto estampada. Sequestram a minha família. E o resgate é a resposta da pergunta: o porquê de eu falar aquilo. O telefone toca. São eles. Aí eu respondo: É que eu não tinha nada pra falar e falei aquilo.

Pessoas são pessoas. Iguais iguais. Depois que eu falei aquilo, nunca mais olharam pra mim. Depois de tantos anos continuam perguntando. Com bilhetes debaixo da minha porta ou com pichações no muro da minha casa. Perguntando o porquê daquilo. Enlouqueci. Saia pelas ruas gritando a resposta. Que eu não tinha nada mais pra falar daquilo.

Daqui a algum tempo os livros vão sair como o que eu falei escrito. E do mesmo jeito que essa geração se abalou. As minhas palavras vão abalar as próximas gerações. E no meu túmulo vai estar escrito a pergunta que eles fizeram em vez do meu nome. Aí eu não vou responder mais nada."

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